história

Viva a TV Digital – Morra a “broadcast flag”

 

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O FCC americano regulamentou em 4 de novembro último que aparelhos capazes de receber o sinal da TV digital (DTV) deverão implementar tecnologias de controle de conteúdo requeridas pela indústria do entretenimento, de forma a restringir o uso do aparelho e a manipulação do conteúdo. Se não for questionado, o mandato da “broadcast flag” irá vigorar a partir de 1º de julho de 2005.

Isto significa que todos os aparelhos de TV vendidos nos EUA serão equipados com um circuito eletrônico que irá procurar, nos programas que você recebe em seu aparelho, por uma pequena marca eletrônica (flag). Se a marca estiver presente, sua TV entrará em modo especial de “alta-segurança” que desativará as saídas (outputs) digitais de alta qualidade. Se você quiser gravar um programa com a “flag”, terá que fazer em fita analógica ou em um DVD especial de baixa resolução.

A EFF está processando o FCC:

O mandato da DTV é um passo na direção errada porque iriá fazer a TV digital custar mais, e não menos, desestimulando a inovação, o uso justo, e a competição”, disse Fred von Lohmann, Consultor de Propriedade Intelectual da EFF, “O FCC ultrapassou os limites de sua atuação, restringindo indevidamente consumidores e a indústria com a criação da “broadcast flag“.

Isto nos recorda do ano de 1978 quando a Universal Studios moveu ação contra a Sony, afirmando que o aparelho de vídeo-cassete Betamax poderia seria usado para piratear ilegalmente filmes transmitidos pelas ondas do ar. Caso não houvesse acontecido a vitória da Sony, não teria acontecido a revolução das camcorders, as produções de vídeo amador, e a proliferação do cinema independente, e Hollywood também não teria produzido as receitas do mercado de aluguel de vídeos – lucrando pesado com a tecnologia que tentou eliminar.

Como afirma Lawrence Lessig, em seu já clássico artigo na Wired (extraído de seu novo livro, “Free Culture: How Big Media Uses Technology and the Law to Lock Down Culture and Control Creativity“):

Se pirataria significa o uso da propriedade criativa de outros sem permissão, então a história da indústria de conteúdo é a história da pirataria. Todo e qualquer setor importante da mídia hoje – filme, música, rádio e TV a cabo – nasceu de alguma forma de pirataria. A história se define pela forma como cada geração se comporta com os piratas da nova geração. Assim tem acontecido – até hoje.

E George Scriban:

A indústria do cinema, as TVs, comercial e a cabo, e o rádio, além de fazer uso liberal do domínio público por longo tempo, são filhos bastardos da pirataria, tendo se apropriado do conteúdo existente para seus próprios fins e sem nenhuma permissão específica. Como é sempre o caso quando evoluímos da revolução para a instituição, quando a classe operária ocupa o castelo, imediatamente sobe a ponte levadiça atrás de si.

Aqui no Brasil a classe operária ocupou o castelo, e creio que ainda não subiu a ponte levadiça. Cabe ao governo ficar atento às questões ideológicas que permeiam as regulamentações tecnológicas, principalmente na implementação da TV digital. É certo que esta tecnologia irá sacudir inúmeros setores da economia e pode, em ação articulada com os projetos de inclusão digital, alavancar um salto na inovação tecnológica e na produção cultural nacionais. É preciso que tenhamos a ponte da cidadania firme em seu lugar, permitindo livre acesso ao castelo. Algo assim como o Projeto Olido.

Update Via LigaNóis: Mais sobre o Projeto Olido no wiki Articuladores (plantas e fotos).

José Murilo em história

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O bom combate – Um ano de argumentações para definição de regras

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O ano de 2004 vai ser marcado pela formulação de importantes marcos regulatórios no setor de comunicação eletrônica, os quais deverão influenciar decisivamente os cenários futuros em termos de liberdade para a inovação e para o florescimento de um ambiente digital saudável.

Neste momento estão ocorrendo as audiências públicas da Anatel (a próxima é amanhã, no Rio), que acompanham a consulta pública sobre o Serviço de Comunicações Digitais (SCD), o que implica também diretamente na regulamentação do FUST. Inclusão digital, redes comunitárias e inúmeras outras possibilidades do ambiente digital dependerão diretamente de boas soluções para este documento.

A regulamentação da TV Digital brasileira é outro assunto que precisa ser acompanhado de perto. O ministério das comunicações, com Miro Teixeira, vinha tratando do assunto de forma dinâmica e interessante – espera-se que o PMDB possa dar continuidade às idéias propostas. Assim como no exterior, também no Brasil a questão da DTV envolve diretamente a produção de conteúdo, e por isso é importante assinalar projetos como o do Min. da Cultura, que está inagurando seu setor de Cultura Digital (coordenado por Cláudio Prado) em parceria com o ITI, de Sérgio Amadeu:

“com atenção especial ao software livre, à Internet, à segurança da informação com uso de certificação digital, à inclusão digital, à telecomunicações – rádio e TV digital, à propriedade intelectual, bem como à distribuição digital de bens intelectuais”.
Sobre o Setor de Cultura Digital do Ministério da Cultura

E por falar em MinC, há que se destacar negativamente a ausência de Gilberto Gil e sua turma (foto + ITI folks) na nova composição do Comitê Gestor da Internet. Ninguém está tão avançado na concepção de uma nova política de propriedade intelectual, tema essencial para se discutir o ambiente da rede. (Veja o recente “The Tyranny of Copyright?“, no NYTimes)

Pergunta-se também, como Sílvio Meira, se ainda este ano o CG.org.br pretende adotar a gestão tripartite e independente (ou seja, fora do governo) de governança da Internet, solução defendida pela delegação brasileira na Cúpula Mundial para a Sociedade da Informação (veja também, sobre o tema, entrevista com Arthur Pereira Nunes, do MCT).

Em termos internacionais, Kevin Werbach sinaliza sobre artigo do New York Times que comenta a queda de braço entre o FCC e as agências de segurança americanas. As discussões giram em torno da classificação dos serviços de Internet (banda larga e voz-sobre-IP) em uma categoria diferente dos serviços telefônicos. O Departamento de Justiça exige que a infra-estrtura permita fácil implementação de “escutas”, mas tal abordagem demandaria a implementação do modelo centralizado e monopolista da velha rede telefônica.

O chairman do FCC, Michael Powell, vem defendendo a manutenção das especificidades da rede:

Regular a Internet à imagem do serviço telefônico como o conhecemos significa destruir seu potencial e características inerentes,” disse Mr. Powell. “Tais novas tecnologias potencializam os indivíduos, dando-lhes maior possibilidade de escolha e controle“.
NYTimes, 22/01/2204

José Murilo em história

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Bons sinais para o ambiente digital nacional: Sérgio Amadeu e Gilberto Gil rumo à digitalização tropicalizada

Comentários de Sérgio Amadeu (ao lado), Diretor-Presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação – ITI, em sua apresentação na 1ª Oficina de Software Livre do Ministério de Ciência e Tecnologia, que está sendo transmitida ao vivo pelo site do MCT:

O Governo brasileiro (ainda) não segue o mercado.”
Sobre o grande uso de aplicativos gerados na plataforma asp nos órgãos publicos, o que impede a utilização do servidor Apache, o qual é
utilizado por 66,8% dos servidores web no mundo
.

Não temos nenhum interesse em olhar o código, se ele permance fechado.
Sobre a oferta da Microsoft de permitir que governos revisem o código fonte do Windows para apaziguar questões de segurança envolvendo o sistema operacional.

“Estamos pensando, talvez, em um novo artigo na lei de software
brasileira, do ponto de vista dos direitos do consumidor, para assegurar o suporte aos softwares oriundos de comunidades de desenvolvimento.”

Sobre as preocupações do governo em criar o ambiente ideal para o florescimento de um novo mercado baseado em software livre.

Enquanto isso, no blog de Lawrence Lessig
sai o anúncio das novas licensas Creative Commons
para casos de sampling (reprocessamento de áudio com uso de sampler), que foram inspiradas
diretamente pelo nosso ministro Gilberto Gil (ao lado, na memorável jam com Kofi Annan) em parceria com o Direito da FGV. O desenvolvimento
da idéia geral foi gestado em lista de discussão.

Como anteriormente destacado no EcoDigital, a utilização dos samplers já influencia diretamente a maioria dos novos estilos musicais criados pelos jovens nas diversas regiões do Brasil (a cibermúsica?), e portanto uma nova abordagem na questão dos direitos autorais é condição fundamental para o florescimento da cultura digital.

Também os arquivos musicais brasileiros estão na mira da estratégia do ministro Gil, pois a execução de títulos com base nas licenças CC no âmbito internacional teria como resultado certo uma ampliação de mercado para música e músicos nacionais. Dá gosto acompanhar algumas iniciativas do governo Lula, principalmente ao perceber na estratégia governamental relacionada às TICs e ao ambiente digital uma posição ideológica consistente, que demonstra consciência da importância do domínio público do código, e de novos conceitos para o gerenciamento da propriedade intelectual.
Os avanços concretos deixam claro que não existem muitas concessões a serem feitas às concepções proprietárias no novo paradigma das TICs nacionais, infra-estrutura primordial de nossa sociedade da informação tupiniquim – devidamente tropicalizada.

José Murilo em história

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Mais Software Livre em Brasília, e tecnologia digital para a paz social

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A seqüência do dia 19 na Semana de Software Livre no Legislativo ficoupor conta de Marcelo D’Elia Branco, coordenador do PSL-RS e grande responsável pela realização do “conclave”.

Assim foi denominado o evento pelo senador José Sarney, que disse ter sido convencido por Marcelo da importância do SL para o futuro do país em fortuito encontro entre ambos acontecido em evento na Europa, no início do ano. Temos que admitir que este encontro
pode ter sido decisivo para o futuro do SL brazuca.

A apresentação de Marcelo descreveu bem o quadro da economia no
setor tecnológico, após a revolução que possibilitou a convergência
das TICs
. Aproveitou a deixa de estar se dirigindo a parlamentares e alertou contra os perigos do DMCA, que estaria embutida no acordo da ALCA. Anunciou também o lançamento do Projeto Software Livre Brasil para amanhã (21/08).

De tarde, a principal atração era o painel da tecnologia digital para a paz social. O articulador de políticas digitais do MinC, Claudio Prado (que, dizem, foi quem botou LSD no discurso do Gil), estaria apresentando o esperado projeto das BACs - Bases de Apoio à Cultura. (vale à pena ver o Do In Antropológico visual).
A idéia foi gestada com a colaboração do grupo Articuladores, e vem ganhando simpatia em vários setores do governo como ação efetiva para a recuperação da auto-estima da juvetude excluída. O projeto promove o domínio das mídias digitais para produção de cultura local (surge o Hip-Hacker), fomentando a veiculação da multidiversidade cultural no ambiente digital – tudo baseado em Software Livre.

Na sequência foi a vez do Marketing Hacker Hernani Dimantas deslocar o foco do assunto para longe dos computadores, enfatizando a importância central da ética hacker e da conversação possibilitada pela Internet como pressupostos do novo paradigma digital. Destacou a importância das BACs no papel de fomento à produção de conhecimento local – caracterizando a terceira geração dos telecentros.

Hermano Viana, também assessor do MinC e especialista nos movimentos recentes da música brasileira, divulgou a intenção do ministro Gil em explorar as possibilidades das licenças da Creative Commons, que inclusive já estariam sendo traduzidas para o português. Destacou que a utilização dos samplers já influencia diretamente a maioria dos novos estilos musicais criados pelos jovens nas diversas regiões do país (a cibermúsica?), e portanto uma nova abordagem na questão dos direitos autorais é condição fundamental para o florescimento da cultura digital. Também os arquivos musicais brasileiros estão na mira da estratégia do ministro Gil, pois a execução de títulos com base nas licenças CC no âmbito internacional teria como resultado certo uma ampliação de mercado para música e músicos nacionais.

Para fechar o painel Luis Eduardo Soares, Secretário Nacional de Segurança Pública, apresentou um quadro forte para ilustrar a desesperada busca de reconhecimento por parte de um menor excluído socialmente ao ir de encontro à sua primeira experiência de violência (apontar uma arma para alguém). Demonstrou que, para os incluídos, jovens pobres são seres invisíveis – esta alienação surge da indiferença ou do preconceito, e torna-se funcional ao naturalizar a paisagem urbana intolerável para que possamos ter um mínimo de paz.

Neste momento primordial de violência, ao apontar a arma, o jovem estará trocando seu futuro por um momento de glória, que depende do olhar de reconhecimento do outro – o que demonstra a importância da dimensão intersubjetiva. De fato, este clamor pelo reconhecimento por parte da juventude excluída não encontra nenhuma resposta das políticas públicas até hoje implementadas, que tendem à homogeinização. Concluindo, Luis Eduardo afirma que a valorização da arte e cultura próprias são capazes de devolver a auto-estima estraçalhada:

“A possibilidade desses jovens demonstrarem virtudes e qualidades, realizando uma produção autônoma de sua própria especificidade em mídia digital, coloca as BACs como projeto singular neste contexto. E promove a centralidade da cultura e das políticas culturais para o desenvolvimento da paz social. Internet, redes de sociabilidade, possibilidade de ser reconhecido e obter respostas, assim constituindo o laço (vínculo) – arte, estética e música, acrescidos do diálogo digital.”

Depois do painel ainda veio o Miguel de Icaza, que nem falou da compra da Ximian pela Novell… Mas aí também já não dava para captar coisa nenhuma…. Fim do dia.

José Murilo em história

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Semana de Software Livre no Legislativo: Convenção anual de hackers?!

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 Cá estou já devidamente acomodado no Americel Hall da Academia de Tênis de Brasília, no aguardo da sessão de abertura da Semana de Software Livre no Legislativo. Já consegui a tomada e o note está no ponto para a blogar o evento. O primeiro a falar na mesa repleta de autoridades é Richard Stallman, e sua apresentação é didática e esclarecedora no que toca os significados básicos do movimento pelo Software Livre:

“Significa que o usuário é livre. Significa que você é livre para usar o software como quiser, mudar, contratar um programador para ajustar o que for necessário caso você não programe, e também livre para distribuir o que desenvolveu. Significa que os usuários estão no controle, individualmente ou em grupo. Estamos aqui para afirmar que estas liberdades são muito úteis, e que negá-las vai contra princípios básicos do desenvolvimento da cultura humana. Por isso somos a favor do Software Livre.

Um cozinheiro é livre para utilizar receitas, e livre para acrescentar ingredientes ou mudar quantidades e procedimentos, adaptando a receita original às suas peculiaridades, sem que para isso tenha que pagar por uma licença de uso. Assim deveria ser na questão do software.

Liberdade é importante. Em algumas situações somos obrigados a lutar por nossa liberdade. Creio que no caso do software não temos que pegar em armas para garantir liberdade, mas talvez seja necessário algum tipo de esforço, uma aposta na mudança. Sem um impulso, os usuários ficam isolados pelas restrições impostas pelo código fechado, e não conseguem perceber as possibilidades que o Software Livre apresenta.
Para efetivar a mudança é importante implantar SL nas escolas, não somente para cortar custos, mas para treinar os futuros adultos nesta tecnologia. Para escrever bom código, há que se ler e escrever bom código. Com o software proprietário você não vê o código – é tudo secreto, não se pode aprender.

Escolas primárias deveriam ensinar as crianças a ajudar seu vizinho. Em escolas secundárias deverão ser os alunos os responsáveis pelo suporte às redes e aos computadores. A sociedade ainda não entendeu bem os aspectos de liberdade que os computadores podem proporcionar. Estou falando aqui do que aprendi.”

O ministro Gilberto Gil também foi instigante e arrojado. Eu diria até… lisérgico, mas talvez a melhor descrição de sua apresentação seja: “contra-cultural”. E foi o único a enfatizar o aspecto ideológico da questão. Não é por acaso que os diversos atores da TIC governamental vêm adorando o arrojo do MinC em atrair a discussão do futuro digital do país para o âmbito da cultura. A transversalidade da abordagem vem facilitando a ultrapassagem de obstáculos e contradições que há muito emperravam a atuação do governo na concepção de projetos para o ambiente digital:

“O novo contexto ideológico clama por participação horizontal da população nos avanços teconológicos. Contextualizando o mundo digital no campo cultural, não devemos nos esquecer que a cultura digital viveu momentos decisivos sob o signo da utopia. Jovens californianos criaram o PC (personal computer), e na mesma época e local, uma outra turma preparava a migração contracultural das viagens de LSD para os laboratórios de alta teconologia e para o sonho da realidade virtual. A Califórnia era ao mesmo tempo o centro da viagem contracultural, e a vanguarda da pesquisa tecnológica. Alteradores de estado de consciência aliados a grandes escritores de código.

Nesta época já se configurava o contraculturalismo eletrônico, e nada mais natural portanto, desta perspectiva cultural, do que a movimentação em direção ao Software Livre. É mais um projeto de nossas utopias realistas, e será básico para que tenhamos asseguradas nossa liberdade e autonomia no século XXI. E é por isso que o governo Lula deve caminhar para a transformação do Brasil
no pólo internacional de Software Livre no mundo.”

(veja a íntegra do discurso do ministro Gil no site do MinC)

Da sessão solene de abertura, foi o que ficou. Os Zés Dirceu e Sarney conferiram o peso político necessário ao evento, mas só. De minha parte, a todo momento me dou conta de como este seminário é importante, e também totalmente improvável de acontecer em qualquer situação que não a de um governo legitimamente popular como o do presidente Lula. O mundo hacker está em êxtase. Na seqüência, mais sobre o evento.

José Murilo em história

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Stallman em Brasília: Uma semana que promete balançar o planalto central

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Retornando ao blog depois de afastamento estratégico, vou dando conta do evento do ano que ocorrerá esta semana aqui em Brasília. A Semana de Software Livre no Legislativo está trazendo Richard Stallman, presidente da Free Software Foundation, e Miguel de Icaza, presidente da Gnome Foundation, e ocorre em momento estratégico para a implementação da proposta no País.

Quem me conta mais detalhes da programação é o amigo Claudio Prado, que vem atuando como articulador de políticas digitais do Ministério da Cultura, e será o moderador da mesa que estará tratando sobre teconologia digital – um caminho para a paz social, que conta ainda com a participação de Hernani Dimantas, Hermano Viana e o Secretário Nacional de Segurança Pública, Luis Eduardo Soares.
Fiquei bem animado ao dar uma olhada na apresentação que o Claudio irá fazer da proposta do MinC para fomento à cultura digital. Tão animado que o convenci a mostrar um pedaço do diagrama aqui no Ecodigital, em primeira mão (abaixo).

Vamos tropicalizar a cultura digital“. “Sem tesão não há inclusão“. Os eventos relacionados
ao ambiente digital têm sido visitados nos últimos meses por idéias e conceitos que trazem fortes elementos da contracultura dos anos 60, principalmente pela atuação de Claudio (o agitador
da Ilha de Wight
), amigo do Ministro Gil, e que a seu mandato está sacudindo o ambiente tecnológico.

Claudio, em visita ao bunker da Ecologia Digital (foto ao lado) explica que não poderia ser de outra forma, pois a Internet e o Software Livre são a “ponta do iceberg” de uma grande mudança paradigmática para a humanidade.

“A Internet furou o sistema – em pleno século XX foi criado o maior engenho de comunicação que já existiu, que não tem dono, carece de poder central, e extrai sua força das pontas conectadas (poder periférico). O século XXI será marcado pela Cultura Digital, e estamos vivendo o parto dessa nova era”.

Pensar novas possibilidades exige um descondicionamento em relação a antigas abordagens. Diante disso, o MinC está chamando para si a responsabilidade de renovar a discussão sobre os parâmetros que irão determinar como a cultura digital irá se densenvolver no país. Em boa hora portanto, vemos um Ministro brasileiro temperar a discussão tecnológica (e de política de telecomunicações) com conceitos integradores, que recolocam a tecnologia como MEIO, e a comunicação como processo de efetivas ações de inclusão social. Portanto, todos à semana de software livre, que agora mudou de lugar e pode abrigar muita gente.

Aproveito para anunciar que o Ecologia Digital publicou a tradução de “Save the Net“, artigo do Doc Searls onde são apresentadas as idéias políticas que estão por trás das disputas pela hegemonia do ambiente digital.

José Murilo em história

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Sem Tesão, não há Inclusão – O foco da questão não é tecnologia

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E segue a II Oficina, onde o destaque é a boa qualidade das idéias apresentadas pelos representantes do governo, principalmente os que estão colocados nas posições estratégicas do setor de TI (agora TIC). Sérgio Amadeu (ITI), Rogério Santana (SLTI/MP) e Rodrigo Assumção, seu incansável adjunto e principal motor do evento, me parece um tripé de qualidade para as transformação necessárias no setor.

Na primeira plenária do dia (ontem, 29), o simpático Rogerião Santanão esteve falando sobre e-gov frente a José Eisenberg, Prof. de Ciência Política do IUPERJ. Sua longa experiência à frente da Procergs, acompanhando a experiência gaúcha de software livre e também o desenvolvimento das práticas do orçamento participativo credenciam seu discurso. O fato de determinados serviços de governo estarem já internetizados (receita, eleições, bancos, geralmente tendo como retaguarda sistemas da esfera do controle), enquanto outros permanecem empacados frente ao emaranhado de sistemas que não conversam entre si revela o viés do E-gov, que até hoje desconsiderou a melhoria da qualidade de vida das populações de baixa renda.

Santana: “até hoje não existe o cartão único de saúde“. Eisenberg apresentou dados de suas pesquisas sobre ação municipal de inclusão digital, e reforçou a visão de que os serviços preparados para serem disponibilizados não coincidem com aqueles que atingem o maior número de usuários: E-gov hoje não sintoniza com inclusão digital. Apresentou avaliação dos diferentes modelos institucionais das empresas de processamento de dados, comparando a Prodabel (Belo Horizonte, empresa pública), a Procergs (Porto Alegre, economia mista) e o ICI (Curitiba, organização social, resquício da Reforma Gerencial) – este último se mostrando mais ágil na captação de recursos, mas ao mesmo tempo menos trasparente e acessível ao controle social.

O último painel ficou por conta de Cláudio Prado (representando o Ministério da Cultura) e Nélson Pretto (FACED/UFBA), que trouxeram os ventos da Educação e da (contra)Cultura ao evento, até então eminentemente técnico e governamental. Cláudio (o agitador da Ilha de Wight), encarregado de representar o ministro Gil, falou mas não disse (segundo ele porque não podia) sobre um projeto de implantação de centros de cultura digital. O plano é incentivar a apropriação tecnológica das novas ferramentas de produção de conteúdos digitais (áudio, vídeo + internet) em localidades com alto índice de exclusão social. Entre outras “visões” Claudio propõe um salto sobre o século 20, este que manteve os frutos do desenvolvimento e do avanço científico distante das massas, para uma aterrissagem digital diretamente no século 21. Implodir o modelo da cultura broadcasting na disponibilização digital das diversas culturas nacionais, irradiando conteúdo a partir das pontas da rede. E para provocar um pouco mais, lançou a frase: “Sem Tesão não há Inclusão“.

Nelson Pretto, que também coordena a Biblioteca Virtual de Educação à Distância, do Prossiga, seguiu com o painel avisando que “as redes não conectam espaços virgens” e reclamando da falta de representação do Ministério da Educação ao evento. Ao mesmo tempo em que denunciou a pedagogização da educação e a professoralidade instituída (professor precisa viajar), alertou para o perigo de se criar estruturas paralelas à escola, sugerindo que a Inclusão Digital seja mais abrangente, incluíndo o cidadão e a escola:

A inclusão digital pode acontecer em um ciberparque localizado no meio do muro que liga a escola à rua, constituíndo um túnel de passagem, o espaço-tempo da produção cultural, onde poderiam se articular comunicação, educação, saúde, ciência, cidadania, tecnologia, etc. Não como algo à parte, mas integrando a formação do cidadão para a construção de uma nação à prova de futuro

Neste sentido convocou o terceiro setor à insistir na parceria com as escolas, e ao Ministério da Educação a se articular com as iniciativas de governo para integrar as ações de inclusão digital.

No fechamento desta blogada, Cláudio Prado ainda tentava, sem sucesso, que sua frase tesuda fosse incluída no documento final da oficina: “Tucanaram a inclusão“.

José Murilo em história

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II Oficina de Inclusão Digital: O grito de guerra do software livre no planalto

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A correria é grande, e portanto só agora alguma coisa sobre a II Oficina chega no blog. O primeiro dia (27) não correspondeu às expectativas. Cheguei atrasado e não vi a abertura, mas a ausência dos ministros previstos (Zé Dirceu e Guido Mantega) foi um ponto a se lamentar – o evento merecia maior respaldo do primeiro escalão. Vi a apresentação do Jorge Sampaio do Instituto Florestan Fernandes, que me pareceu legal, mas sem nenhuma sinergia com o representante do Programa Fome Zero. Ou seja, plenárias do primeiro dia passaram em branco. Os grupos de trabalho foram mais interessantes.

O que despertava a atenção hoje (28)* era o atrativo especial chamado Silvio Meira (CESAR / Porto Digital) (foto) que conhece como ninguém as peripécias da arte zen de se produzir software no Brasil, e estaria frente à frente com Sérgio Amadeu, homem forte da TIC governamental, numa conversa sobre Inclusão Digital e Software Livre.

O debate ultrapassou as expectativas, deixando muito claro no entusiasmo de Amadeu que estaremos diante de diretrizes políticas de compras governamentais em TI realmente revolucionárias. É software livre (e não grátis) e ponto. Há que se destacar a lucidez e o refinamento das colocações do Sílvio sobre alguns poréns relevantes na doce visão do Brasil como eldorado do software livre, mas a arrojada empolgação do Diretor do ITI é contagiante.

A primeira palestra do dia já havia surpreendido pela presença de Nelson Simões, da RNP, que apresentou com clareza uma alternativa “à prova de futuro” de como pavimentar as vias que irão possibilitar todo e qualquer projeto de inclusão digital. A opção pela fibra ótica / rede ethernet, acrescida em flexibilidade pela possibilidade wi-fi na chamada “last mile” configura uma combinação eficiente, de baixo custo, e que estaria pronta para a demanda por novas aplicações a ser gerada nas pontas da rede. Muito interessante a ênfase do Neslon de que a rede não pode ser vista como um serviço, e sim como patrimônio a ser gerido pela comunidade usuária. Vale muito estudar a apresentação dele: Redes Comunitárias.

(mais…)

José Murilo em história

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