Ouça – Ciclo Mutações: A Invenção das Crenças
Seção: 2010, Áudio, Ciclo Mutações, Notícias
O ciclo de palestras Mutações: a invenção das crenças promoveu o debate em torno dos efeitos da revolução tecnocientífica sobre a mudança das ideias e práticas da crença. No caso, entendendo-se por crença não apenas as religiões, mas também, e principalmente, os ideais políticos, os valores morais e éticos, as novas visões do mundo, as construções imaginárias nas artes, enfim, tudo aquilo que Paul Valéry define como coisas vagas, tudo que se opõe aos fatos ou à “realidade”.
Em 2010, o seminário aconteceu em quatro capitais – Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília - reunindo alguns dos mais importantes pensadores brasileiros e estrangeiros que, a convite de Adauto Novaes, tem trabalhado o tema das Mutações.
As conferências realizadas este ano estão disponibilizadas no site da Academia Brasileira de Letras. No intuito de ampliar o alcance deste material, organizamos a seguir os links para as páginas nas quais é possível ter acesso ao áudio das palestras.
* Nota: A conferência CRENÇAS E SUBSTITUIÇÃO, de Abdelwahab Meddeb, foi cancelada em todas as cidades.
- A crença e o ócio
Conferencista: Olgária Matos
Trata-se de analisar a noção de crença em suas relações com o conceito de ilusão, conceito este que será examinado segundo as signifcações de encantamento e decepção. Desiludir-se é abandonar as ilusões e ascender à consciência e à lucidez. Este é o movimento proposto por Albert Camus para analisar o mito de Sísifo. De Don Juan a um Sísifo feliz, Camus elabora uma concepção do tempo e do ócio porque “são os ociosos que mudam o mundo; os outros não têm tempo algum”.
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- Crenças e crendices em Wittgenstein
Conferencista: José Carlos Salles
A ciência parece infensa à paixão, afastando-se da religião, da fé, da crença, e opondo-se, desse modo, ao que os iluministas chamariam de entusiasmo e superstição. Constitui-se, então, uma surpresa um aforismo do Tractatus, de Wittgenstein, que diz ser “a crença no nexo causal superstição”. A partir desse problema, a palestra irá mostrar, entre outras coisas, que a análise da causalidade, em vez de ser um obstáculo à ciência, pode dar lugar a outras constituições e leituras da experiência, a exemplo das provindas da imaginação poética.
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- Aquém e além da razão (Europa na China – ida e volta)
Conferencista: François Jullien
A palestra abordará o entendimento da “crença” no ocidente, compreendida em dois sentidos: infra e metafilosófca (aquém e além da razão). Assim, se a razão ocidental conhece bem a linha que a separa de modo radical da crença, talvez seja importante considerar o movimento do pensamento chinês no sentido da sabedoria de se evitar qualquer tipo de ruptura entre o mundo material e o espiritual.
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- Ceticismo, erro, verdade
Conferencista: José Raimundo Maia Neto
Dois desejos fundamentais que sempre orientaram a atividade flosófca são o de encontrar a verdade e o de evitar o erro, confundido com a crença e a opinião. Os céticos foram os flósofos antigos mais empenhados em evitar a opinião, pois só assim poderiam se aproximar da verdade. Com o advento do cristianismo o problema ganha novos contornos, uma vez que a crença cristã se coloca como verdade absoluta. As relações entre ceticismo e crença sofrem nova mudança no renascimento com a reforma e a descoberta do novo mundo. Por último, será examinada a questão do ceticismo moderno na obras de Machado de Assis, leitor contumaz de agostinho, montaigne e Pascal.
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- Santo combate
Conferencista: Eugenio Bucci
A conferência tratará da crença na “beatificação” dos ativistas políticos de esquerda, ou seja, na pressuposição de que o militante encarnará, de uma só vez, a persona do santo e do combatente. Militantes seriam, assim, uma espécie de sacerdotes agindo em falanges. Neles, a servidão voluntária alcança o nível da perversão prolongada. e, como a causa é universal, não pode haver alegação de ordem individual que lhe oponha resistência legítima.
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- Crença na palavra, aposta no sujeito
Conferencista: Maria Rita Kehl
A pergunta sobre a crença na palavra conduz, de plano, à ilusão de que a relação entre as palavras e as coisas que elas designam seja comandada por uma única verdade, como é o caso da crença de que deus criou e nomeou todos os seres. Tendo em vista que, desde os primórdios da humanidade, o homem perdeu a segurança no poder de verdade imanente às palavras, a crença na palavra seguiu, assim, para o campo incerto das relações interpessoais, ou seja, para uma crença na pretensa “verdade” daquele que fala. a partir daqui será discutido o estatuto da “mentira”, tanto no campo das relações interpessoais, quanto no da psicanálise.
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- Incerteza e descrença
Conferencista: Luiz Alberto Oliveira
A formulação do Princípio da incerteza por Werner heisenberg, em 1927, representou radical ruptura não só com a cosmovisão “clássica”, baseada no mecanicismo newtoniano, mas também com todo materialismo simplista. Tal princípio expressa a impossibilidade de se poder determinar simultaneamente a posição e a quantidade de movimento de uma partícula sub-atômica, constituindo-se na regra básica da física quântica. a conferência tratará, portanto, da discussão em torno da suspensão do mais antigo artigo-de-fé da ciência, qual seja, a de que há um mundo “real” lá fora.
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- Sobre a religião, a política e a ciência
Conferencista: Frédéric Gros
Três assuntos fundamentais estarão em jogo na palestra: primeiro, se a religião seria a detentora do monopólio da crença; segundo, se a política e a ciência não teriam se constituído nos séculos 19 e 20 nos novos grandes domínios da crença; por fm, se discutirá quais as relações da atual tendência para um desaparecimento das crenças com as desconfanças em relação ao progresso científco acusado de lentamente destruir o planeta.
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- Sagração da economia, violência sem limites
Conferencista: Jean-Pierre Dupuy
A partir de uma observação de emile durkheim ligando a atividade econômica — como forma de poder — à religião, vai-se discutir o pensamento do francês rené girard sobre vários aspectos de uma antropologia religiosa. a partir daí será levantada a questão da economia se constituir na continuação do sagrado por outros meios, em um mundo posto em perigo extremo pelo vácuo provocado pela radical dessacralização moderna. a economia, por sua arrogância, privou-se do que poderia servir-lhe de transcendência, o domínio do político, que ela absorveu quase que inteiramente. ocupando todo o espaço, a economia condenou-se a si mesma.
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- A crença no melhor argumento: sobre o fundamento fantasmático da autoridade
Conferencista: Vladimir Safatle
Os problemas a serem explorados na conferência dizem respeito, fundamentalmente, à consuetudinária distinção entre razão e fantasia. uma das indagações é se estaria em jogo na gênese da crença da “força da lei” do argumento racional uma espécie de gênese “fantasmática”, “fantasiosa”, da força da racionalidade. Será também tratada a assertiva da racionalidade estar quase sempre vinculada a um processo ‘não coercitivo’ regulado pela identifcação do ‘melhor argumento’.
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- Opinião e crença
Conferencista: Marcelo Coelho
A partir do exame do filme americano Dúvida, de John Patrick Shanley, será discutida a distinção entre os conceitos de “fé”, “crença” e “opinião”. No filme, a diretora de um colégio católico investiga a vida de um padre professor em razão de uma vaga suspeita de pedoflia. Uma professora mais jovem e menos rígida, simpatizante do padre, não acredita nas más intenções dele. Há aqui um primeiro plano ligado à “fé”, qual seja, de seguir fielmente aos mandamentos da igreja, que diz ser a pedoflia e a homossexualidade condenáveis; um segundo plano da “crença”, que diz, por exemplo, ser todo homossexual dissimulado, e, por fim, o plano da “opinião”, que irá considerar a culpabilidade ou não do padre sem provas concretas para nenhum dos lados. Em seguida, será então discutido o processo de formação de uma “opinião pública”.
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- As portas da crença
Conferencista: Pascal Dibie
Tem-se pouca consciência de que uma porta representa uma imensa aventura ligada a ritos de passagem e a crenças específicas, dependendo das culturas e dos homens que a utilizam. Na conferência tudo isso será tratado tanto do ponto de vista filosófico (simbólico) quanto etnológico (material), no sentido de mostrar que as proteções e precauções que envolvem as portas e as soleiras são inúmeras e evocam tantas crenças quantas culturas existentes.
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- Evidência, experiência e crianção do espaço público
Conferencista: Renato Lessa
Discursos a respeito da verdade podem se exprimir por meio de três modos fundamentais: o modo da prova, o modo da demonstração e o modo da persuasão, todos a exigirem a presençade modalidades de crença específicas a cada um deles. Será ainda explorado outro modo defixação da verdade, qual seja a presença da “evidência” como atributo essencial, bem como anatureza das crenças envolvidas nesse ato de crer em uma evidência.
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- Armadilhas da história universal
Conferencista: Marcelo Jasmim
A crença de que a humanidade está submetida a uma história universal parece ter perdido sua naturalidade no mundo contemporâneo. As dramáticas experiências vividas desde a Segunda Guerra Mundial obrigaram à busca de formas alternativas para a orientação do agir que não as inscritas nas filosofias da história. Dado que muitas comunidades sobreviveram e sobrevivem sem a história, tem-se claro que ela não é uma necessidade natural da humanidade e sim uma invenção civilizatória, em nosso caso grega. Assim, a indagação básica que se faz é se poderíamos prescindir de uma crença na força da história.
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- Ciência e religião: crença contra crença?
Conferencista: Paulo Sérgio Rouanet
A conferência terá por ponto de partida a distinção tipicamente iluminista entre a crença baseada no testemunho e a baseada no objeto. Como exemplo da primeira, pode-se citar a “autoridade” do testemunho dos apóstolos de que Cristo ressuscitou no terceiro dia. A crença baseada no objeto é aquela que irá dizer ser a neve branca, ou que “dois mais dois é igual a quatro”. O primeiro tipo de crença é o que chamamos de “fé”, e só elas podem ser cognominadas de “crenças”, no sentido próprio. O segundo tipo pertence ao domínio da ciência. Por último, será discutida a coexistência de um fanatismo religioso que utiliza as armas da ciência e a técnica (terrorismo islâmico) e de uma ciência que prega o ateísmo como se fosse uma guerra santa (Richard Dawkins), bem como a tentativa de “mediação” entre as duas proposições empreendida por Habermas.
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- Fé e saber
Conferencista: Oswaldo Giacoia Junior
A partir da atualidade do problema da ‘invenção das crenças’ se reportar, como questão filosófica, à oposição entre fé e saber — que encontra uma versão bastante provocativa na filosofia de Friedrich Nietzsche —, a conferência buscará explorar muitas das reflexões nietzschianas sobre as relações entre ciência e fé a partir das coordenadas da epistemologia, da moral, da política, da religião e da estética.
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- Os últimos dias de um profeta
Conferencista: Newton Bignotto
A partir da definição de profecia como uma certeza moral, uma revelação que não admite contestação, vai-se examinar o discurso de tom profético do padre dominicano Girolamo Savonarola, condenado à morte em Florença, Itália, no ano de 1498. Para entender tal evento,
mister se faz compreender como a execução de Savonarola foi precedida pela morte de sua profecia.
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- Mística e saber oculto
Conferencista: Franklin Leopoldo e Silva
O valor da crença não é apreendido na associação com o que falta saber, mas sim com o que estará sempre além da exploração intelectual. Assim, se fosse proposto um exame das razões da crença por meio da consciência reflexiva, caminharíamos na direção do desvelamento do
‘saber oculto’ da própria crença, o que se constituiria, por extensão, no seu desaparecimento. A partir dessas considerações, e seguindo ideias de Santo Agostinho e Bergson, serão discutidas as relações entre crença e mística, e entre crença e religião.
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- A crença do espelho
Conferencista: José Miguel Wisnik
A conferência tratará de colocar face a face os contos de Machado de Assis e de Guimarães Rosa que trazem o mesmo título, “O espelho”. Entre outras questões, será visto que, por oposição à corrosiva negatividade machadiana, Guimarães Rosa propõe a experiência do vazio especular em cotejo com modelos místicos, perseguindo, assim, caminhos metafísicos por excelência.
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- Triste e sorridente metafísica
Conferencista: Jorge Coli
Na cultura ocidental, a existência de uma obra de arte sempre dependeu de dois vetores situados em campos complementares: o da autoridade que sacramenta e o do devoto inspirado pela fé. esse modo de ser, graças à distância tomada pelas artes, desde a pós-modernidade, em relação aos fervores intensos que presidiram as criações modernas, adquire um tom de frivolidade, de voluntária ironia, tornando-se uma espécie de religião que não se leva muito a sério.
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- Razão crítica, razão instrumental e crença
Conferencista: Antonio Cicero
A semelhança entre “fé” e “crença” é de tal maneira forte que certas línguas têm uma só palavra para designar ambas. Contudo, a diferenciação entre “fé” e “crença” em inúmeras línguas indo-europeias também quer demonstrar o reconhecimento de uma diferença entre elas que é necessário precisar. Por sua vez, tanto “fé” quanto “crença” sempre se opuseram, ao longo do tempo, à “razão” e ao “conhecimento”. Essas são as questões a serem examinadas sob o enfoque filosófico.
Ciência e religião: crença contra crença?
A conferência terá por ponto de partida a distinção tipicamente iluminista entre a crença baseada no testemunho e a baseada no objeto. Como exemplo da primeira, pode-se citar a “autoridade” do testemunho dos apóstolos de que Cristo ressuscitou no terceiro dia. A crença baseada no objeto é aquela que irá dizer ser a neve branca, ou que “dois mais dois é igual a quatro”. O primeiro tipo de crença é o que chamamos de “fé”, e só elas podem ser cognominadas de “crenças”, no sentido próprio. O segundo tipo pertence ao domínio da ciência. Por último, será discutida a coexistência de um fanatismo religioso que utiliza as armas da ciência e a técnica (terrorismo islâmico) e de uma ciência que prega o ateísmo como se fosse uma guerra santa (Richard Dawkins), bem como a tentativa de “mediação” entre as duas proposições empreendida por Habermas.






