Conhecer para entender
Por Pio Lobato
Ao receber o convite para escrever a respeito do que poderia ser a música raiz-antena de Belém fiquei pensativo sobre o que esse termo poderia representar. A expressão não define exatamente um tipo ou formato musical específico. Remete a uma junção de duas imagens fortes, apela para conexão delas entre si e para sua representação de contato com o mundo. Uma junção que dá uma margem a diversas interpretações.
Por outro lado temos Belém, cidade que situada bem a norte da enorme geografia nacional, mantém um universo cultural distinto e desconhecido do resto do país. Essas características não são exclusividades daqui, porém diversas peculiaridades se devem a isso. Belém ainda é uma grande incógnita cultural, não só para quem não a conhece e está de fora, mas também para muitos que moram nessa cidade.
O termo “raiz-antena” pode gerar diversas interpretações e com poucas informações desse cenário corremos o risco de deslizar para um estereótipo fácil, criando uma caricatura da realidade, pois se tratando de cultura muita coisa é possível, é algo muito dinâmico.
Creio que o mais importante é perceber realmente como a inteligência pode transformar o cenário musical. E nesse ponto Belém realmente sempre demonstrou criatividade e inovação, muito além dos tradicionais tambores de carimbó e com o mesmo entusiasmo dos ancestrais na invenção da festa.
Optei então por traçar uma espécie de panorama musical da cidade, uma versão pessoal, com algumas coisas que presenciei, conectando alguns acontecimentos que transformaram e continuam a transformar a movimentação em torno do mercado de shows e discos. Farei isso focalizando unicamente a parcela mais popular e comercial dessa produção.
Obviamente que é pouquíssimo diante de todo o cenário, suas redes e movimentações particulares. Belém é uma fonte musical rica, caótica, diversificada e cheia de possibilidades que se abrem através da inteligência criativa que liga diversos elementos. De forma sutil, surpreendente, inusitada, a cidade nos mostra como é precioso observar com atenção algo diferente e sem alimentar expectativas ou o prisma de estereótipos ou caricaturas.
Guitarrada, a mãe da Lambada
Em 2007, se completam exatamente 30 anos do lançamento do primeiro disco de guitarrada que se tem notícia, “Lambada das quebradas” de Vieira e banda, o vinil trazia algo de ousado para a época, apostava em uma música instrumental regida pelos solos da guitarra elétrica. Uma mistura intuitiva de choro, merengues e jovem guarda que certamente já era bastante conhecida anos antes em bailes pelo interior do Pará, mas que naquele momento, com seu primeiro registro, passou a contar com a força de uma gravadora a mover sua difusão pelo país.
Com a nova formatação mercantil, a guitarrada ganhou disco, maquiagem, letras, coreografia e… contratos, e foi batizada de lambada, uma filhota que ficou conhecida no país através do trabalho incessante de divulgação pelos meios de comunicação. Rapidamente chegou à Europa, o que de certa forma alavancou seu consumo pela classe média no Brasil e foi foco do que poderia haver de melhor e de pior naqueles tempos de monopólio fonográfico.
Devido ao sucesso em vendas da lambada, Belém passou nos anos 80 a ocupar um lugar de destaque no mapa musical do país, ou pelo menos assim parecia pra mim naqueles tempos adolescentes, quando vi na cidade proliferarem inúmeras bandas e casas de show direcionadas ao gênero. O cardápio oferecido pelas bandas de baile naquele período era basicamente a lambada e o carimbó, e paralelamente a isso havia o rock de Brasília, o pop britânico e a popularíssima primeira geração do brega de Belém.
As gerações que vieram da lambada
Nomes do brega cultuadíssimos em Belém, como Juca Medalha, Os Panteras, Luis Guilherme, Teddy Max, certamente soam estranhíssimos fora de seu contexto; muitos não fazem idéia do que foi o brega naquele momento. Vale explicar que a palavra não tem o caráter depreciativo que percebi em outros lugares do país: “brega” em Belém é imediatamente associado ao gênero musical. Ele nasceu da influência direta da Jovem Guarda quando lhe foi adicionado intuitivamente nos estúdios o balanço de várias influências musicais latinas. Características do merengue, da salsa, do carimbó, da guitarrada , entre outros, transformaram-se num rock com uma nova forma de tocar. Logo essa salada foi também absorvida pela dança.
Naqueles primeiros momentos dos anos 80, brega, a lambada e o carimbó estabeleciam-se como principais referências populares da identidade musical em Belém. Nesse cenário, cresceu bastante a quantidade de autores e estúdios pela cidade. Aquele momento traçou os contornos do que uma década depois descrevo como a segunda geração do brega de Belém, da qual uma de suas maiores referências é sem dúvida Roberto Villar.
O Brega pop
Villar já vinha de uma carreira de vários anos sem muita expressão até o momento em que juntou suas canções mais populares em um só álbum e trabalhou massivamente nisso. Aos poucos se tornou a maior expressão do gênero no Pará, sobretudo com a música “profissional papudinho” que tocava praticamente em todas as festas. Parte do seu êxito pode ser creditada a um jovem produtor e guitarrista de estúdio que naquele momento estava dando seus primeiros passos no mercado, e era conhecido por Chimbinha.
Chimbinha gravava ocasionalmente no estúdio XD, que se localizava exatamente atrás do palco na casa de shows Xodó, uma das maiores da cidade. As gravações no estúdio eram trabalhadas em ritmo quase industrial. Muitos cantores, letristas, instrumentistas lá chegavam com seus esboços de letras e canções e de lá saíam com seus trabalhos já finalizados algumas horas depois, vários discos não tomavam mais que uma tarde nesse processo. Esse ritmo frenético de trabalho foi a escola de produção por que passou Chimbinha. Nesse processo de standardização ele descobriu as etapas e os caminhos daquela linguagem, o que seria determinante para posteriormente desenvolver seu próprio trabalho. Dessa época é o Primeiro CD solo de Chimbinha, que me foi apresentado por nada menos que Hermano Vianna em 1999. Totalmente instrumental, e chamava-se “Guitarras que Cantam”, um disco de guitarradas!!!
Não sei se nessa época já havia o projeto da Calypso, mas lembro muito bem dos primeiros shows que assisti da banda. Na época a dupla mostrou não depender em nada da superprodução que tem hoje. Joelma e Chimbinha sempre tiveram muita intimidade com palco e carisma com o público. A dupla circulou o país fazendo o que mais sabem, música e shows populares.
Depois de algum tempo descobri com o próprio Chimbinha que seu maior ídolo é mestre Vieira, o que não me surpreendeu, já imaginava algo assim, temos aí uma conexão através da guitarra. Ela, que é um dos maiores símbolos do rock no planeta, traçou em Belém um caminho tão distinto e original que podemos arriscar a chamar de “guitarra popular brasileira”.
Aparelhagem + kraftwerk + Calypso = tecnobrega
Um dos grandes meios de divulgação da música no Pará são as tradicionais festas de aparelhagem, algumas empresas do ramo chegam a ter mais de 50 anos, são festas itinerantes com toneladas de estrutura de luz e som freqüentadas por milhares de pessoas.Comportam quase que diariamente entre 2 e 10 mil pessoas em bailes pela capital e interior do estado e lembram as radiolas do Maranhão ou os sound sistem jamaicanos. O ponto máximo de uma festa dessas, festa essa que pode durar um dia ou uma noite toda, é a “decolagem do altar sonoro”, como são chamadas a cabines do DJs. Geralmente a festa gira em torno desse momento movida a muita música, dança e cerveja. Estima-se que existam mais de 200 aparelhagens em Belém (aliás, cidade brasileira campeã em poluição sonora) e foi nesse cenário que surgiu o tecnobrega, versão eletrônica do brega da Calypso, quando lhe foram adicionadas as batidas eletrônicas de PCs caseiros.
Creio que são poucos os freqüentadores de aparelhagem que conhecem o Kraftwerk, famosa banda de música eletrônica dos anos 70, entretanto a maioria reconhece imediatamente “The models”, um grande hit da banda que ainda hoje é popularíssimo nessas festas. O que certamente foi algo determinante para o surgimento do tecnobrega. A conexão é simples:
Uma das fases mais trabalhosas e caras da produção de uma música é a gravação da bateria acústica, um processo que normalmente necessita de sala de gravação, técnicos e equipamento adequado, e muitas vezes se torna inviável pelo custo. Quando surgiram em Belém computadores caseiros capazes de superar essa etapa, substituindo esse processo pela adição das batidas eletrônicas, iniciou-se uma nova fase criativa da música na cidade. O público que já estava habituado ao hit do Kraftwerk aceitou muito bem a mistura. Conseqüentemente, começaram a aparecer bandas apostando na novidade em suas canções. Assim nasceu o Tecnobrega, misturando informações da música eletrônica sem haver nenhuma tradição anterior nesse campo.
Cada vez mais eletrônico
A banda mais representativa dessa fase chama-se Tecnoshow que, como a Calypso, surgiu da união profissional de um produtor habilidoso e uma cantora carismática – Beto Metralha e Gabi. A novidade rapidamente se projetou na cidade através das aparelhagens, o que estimulou ainda mais o surgimento de bandas similares. Nos palcos a Tecnoshow eliminou apenas a bateria tradicional, mantendo todos os outros instrumentos e o show performático ao estilo da Calypso. Até que pouco tempo depois mais uma transformação iria moldar o brega, e novamente possibilitada pela informática doméstica.
O Tecnobrega sempre contou com divulgação massiva nas festas de aparelhagem, e aos poucos a sonoridade eletrônica foi ganhando mais espaço. O marco dessa assimilação foi o surgimento do cybertecno, criação do Dj Iran. Conta ele que precisava ter uma nova música, especial de aniversário para sua própria aparelhagem. O problema é que até a véspera do evento não havia conseguido quem a gravasse. Vendo-se sem outra alternativa, foi para o computador e ele próprio começou a compor seu brega comemorativo, baseado em presets e plug-ins do próprio PC.
Do clima tenso e da situação de pressão nasceu uma música frenética e eufórica. A aceitação no dia seguinte foi tão positiva que a partir daí Iran decidiu se dedicar a essa linha de composições. Curioso o fato de ele ter usado de forma experimental os mesmos presets disponíveis em qualquer lugar do planeta para fazer algo completamente voltado para seu cenário peculiar e com isso conseguir transformar toda uma cena musical praticamente sem querer. Lembrando sempre que são festas para pelo menos 2 mil pessoas.
Em contraponto ao ritmo acelerado e frenético do cyber tecno surgiu depois o brega-melody, que, com mais balanço e uma cadência mais lenta, criou o fundo musical ideal para os casais que querem dançar junto nos bailes. Dessa forma, o repertório das aparelhagens foi tomado praticamente pelo tecnobrega e suas vertentes principais, o cybertecno e o brega-melody. Recentemente surgiram novidades antes impensadas, como o cyber-carimbó, um misto de batidas sampleadas do carimbó tradicional somado a batidas do cybertecno. O resultado pôde ser conferido no programa “Central da Periferia”, da rede Globo, apresentado por Regina Casé, que foi dedicado a Belém do Pará.
A cobra mordendo o próprio rabo
Ironicamente, a profusão de tecnobregas estimulou uma outra vertente recente das aparelhagens, desta vez endereçada ao público mais velho que freqüentava os bailes dos anos 80 (com guitarrada, lambada, brega, carimbó, merengue e… Kraftwerk!). Hoje em Belém são cada vez mais freqüentados os “bailes da saudade”, festas de aparelhagem conceituais que trabalham exclusivamente com esse repertório nostálgico. Usando antigos discos de vinil, contrastam com a correria pelas novidades tecnológicas idolatradas por quase todas elas e, como havia dito no começo, algumas há mais de 50 anos!
Continua nos próximos capítulos …
Por enquanto a história está nesse estágio, vou parando por aqui, e nem foram comentados aspectos da música de câmara, Instrumental, o rock, o próprio carimbó, o boi, a marujada, o siriá e vários outros. Impossível abraçar tudo em tão poucas linhas, mas espero ter mostrado um pouco da vitalidade que sempre há nesse aspecto da cidade que se inventa e reinventa. Uma paisagem musical distinta, traçada com habilidade e originalidade. Uma forma particular de viver sua música, seus prazeres e seus sabores.
Pio Lobato é músico






