sábado, 25 de outubro de 2014 RSS Ouvidoria Fale com o Ministério

Artigo Sobre a Diversidade por Pierre de Freitas, palestrante do Seminário em Boa Vista

A Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais nos permite, como nunca antes aconteceu na história deste país, construir idéias e ações mais exatas sobre o tema. É um momento de reflexão, discussão e planejamento de ações.

Acredito que estas ações devem ser palpáveis, não aquelas mirabolantes ou de teor demasiado intelectual que acabam não saindo do papel ou, se saem, são inacessíveis do grande público. Neste sentido, parabenizo o MINC pelo prêmio de culturas populares e pelo seu formato, que consegue inserir e desburocratizar.

Necessitamos, além de clareza e objetividade, também sermos patrióticos e democráticos neste momento. Não podemos esquecer que cultura tem que ser vista como necessidade básica do homem e da sociedade a qual ele faz parte.

Muito me interessa falar sobre Diversidade Cultural, principalmente pelo exercício que nos propõe o assunto e sua abrangência.

Ao falarmos de Diversidade Cultural, dificilmente não falaremos de civilizações pretéritas, de economia e sociedade e ainda de globalização. Dificilmente não serei levado às lembranças da minha cidade natal, Brasília, e da cidade que atualmente escolhi para viver, Palmas – TO. Ambas com algo em comum: foram previamente elaboradas e suas construções foram realizadas por pessoas vindas de todas as partes do Brasil, ou seja, de situações culturais e sociais distintas. Eu mesmo sou fruto desta diversidade, pois sou filho de um capixaba com uma goiana.

Mas, vamos por partes! Comecemos pela globalização: o mundo, no meu entendimento, não é uma cidade global, mas antes um arquipélago planetário, onde a unidade não deve se fazer pela uniformidade, mas por uma gestão de homogeneidade. O mundo hoje é muito mais complexo que há décadas e, por conseqüência, a Diversidade Cultural é diariamente bombardeada, transformada e mudada pela intensidade de fluxos migratórios, pela rapidez da circulação das informações, o fim dos sistemas de filosofia de destruição… o mundo realmente é bem mais complexo e ágil nos tempos de hoje.

Toda esta facilidade de circulação de homens, idéias, produtos, ideologias e informações nos deixam em situação de vulnerabilidade. O Brasil se encontra muitas vezes nesta situação, de vulnerabilidade ideológica. Enfraquecido pela hegemonia cultural estrangeira, sobretudo a norteamericana, que nos é imposta pelo cinema, pelos modismos e pelos fast foods e refrigerantes (que oprimem nosso takaká, nossa pamonha, nosso biju…).

Por outro lado, não nos esqueçamos de que isto não é de forma alguma um problema exclusivo do Brasil, não diferente dos países emergentes ou pobres da Ásia, África e Américas Central e do Sul. A maior parte das sociedades ocidentais e orientais se confronta com problemas nascidos da heterogeneidade sociocultural. Cada uma dessas sociedades se mobiliza e reage de maneira diferente, segundo suas tradições históricas, religiosas, sociais e econômicas. Estas sociedades não deixam de ser reconduzidas às novas situações que acabam trazendo desconforto entre as tradições do passado e as novas metodologias do presente e do futuro, gerando assim um olhar preocupado do eu coletivo face à diversidade cultural que se manifesta: certa da importância da preservação das manifestações culturais pretéritas, como também seguras de que não poderão se esquivar das novas propostas e linguagens da contemporaneidade. Porém, acontece com muita freqüência esquecermos que tudo isso pertence de maneira igual a nós mesmos.

Nós, seres efêmeros, somos biologicamente únicos e carregamos nossa carga genética que assim determina que sejamos únicos. Porém, pertencemos a um grupo de seres vivos: a humanidade. Este grupo é determinado por certo número de características semelhantes e que nos distanciam de outros grupos de seres vivos. Temos uma capacidade intelectual que nos diferencia de qualquer outro ser vivo, nos proporcionando extraordinária condição de autonomia em relação aos seus determinantes biológicos, individuais ou coletivos.

O homem é um ser de cultura que, no sentido antropológico do termo, é “um conjunto complexo que inclui os saberes, as crenças, a arte, o direito, os costumes, assim como todas as maneiras e regras usadas pelo homem que vive em sociedade”. Este tipo de definição nos leva ao menos a duas conseqüências. De um lado, liga a dimensão de cultura à dimensão social do homem: implica as criações que operam o homem que vive em sociedade, e para que esta existência social se realize e se reproduza. Se cada individuo deve ter seu direito reconhecido de aceitar, recusar ou modificar sua herança cultural, então a cultura pertence a uma dimensão coletiva essencial. De outro lado, esta dimensão coletiva pode visar grupos de dimensões ainda fracos, grupos definidos a partir de critérios não menos diversos, coerentes e legítimos. Sob a reserva desta última condição, poderemos então falar de cultura, de direitos culturais e de diversidade cultural, que não deve pertencer a somente um grupo, mas sim à universalidade.

Eu poderia ainda completar dizendo que o universal não nasce somente das experiências particulares, mas das suas transformações interativas. A pluricultura deve conduzir ao intercultural.

Devemos, todos, apoiar e difundir a diversidade cultural que é, sem dúvida, uma das mais importantes marcas do nosso país.


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