sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

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Começam os debates em Tekoha Añetete

Teve início nesta quarta-feira, dia 03, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul (Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa). O evento acontece até o dia 05 de fevereiro na aldeia indígena Tekoha Añetete, localizada no município de Diamante D’Oeste, Paraná. Leia.

Foto_PubliusVergilius_AgGingafotos6Teve início nesta quarta-feira, dia 03, o  Encontro dos Povos Guarani da América do Sul (Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa). O evento acontece até o dia 05 de fevereiro na aldeia indígena Tekoha Añetete, localizada no município de Diamante D’Oeste, Paraná.

A cerimônia de abertura contou com a presença de todas as lideranças indígenas dos sete estados brasileiros e da Argentina, Bolívia e Paraguai, além do secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Américo Córdula, do diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek e da prefeita de Diamante D’Oeste, Inês Gomes.

Cerca de 800 índios Guarani estão reunidos com o propósito de debater a integração da comunidade indígena. É a primeira vez que uma ação desta magnitude acontece entre os povos como fonte de fortalecimento de suas raízes culturais.

De acordo com o secretário Américo Córdula, o encontro começou a ser idealizado há três anos, desde a realização do Fórum Internacional de Integração Cultural do Mercosul.

“Este encontro começou a ser articulado junto às aldeias nos sete estados onde estão concentrados os índios desta etnia. O objetivo é o de buscar o fortalecimento e reconhecimento da cultura indígena como formação da identidade brasileira. Há uma influência muito forte na nossa língua, na nossa culinária e na nossa dança vinda dos povos Guarani. É uma cultura que possui um importante vínculo com a identidade sul-americana. Por isso, a necessidade de se começar uma grande campanha de valorização destes povos para reverter o quadro de preconceito existente hoje com relação aos índios”, avaliou o secretário.

Foto_PubliusVergilius_AgGingafotos639Entre a comunidade indígena, é grande a expectativa com relação ao  Encontro dos Povos Guarani da América do Sul. Além das questões culturais, um dos pontos que serão abordados nos debates é a demarcação de terras. Problema que aflige grande parte dos indígenas Guarani.

Segundo o cacique Elpídio Pires, do Mato Grosso do Sul, a questão da terra é considerada, atualmente, como o principal assunto de debate entre as comunidades indígenas. “Com a ‘terra’ resolvida é possível nos organizarmos melhor e termos estrutura para cuidar de outros assuntos que também são importantes, como o nosso reconhecimento cultural”, revelou.

“Hoje o que nós estamos buscando é mostrar nossa história, quem somos e o que queremos ser no futuro. Nós gostaríamos de ter nossa cultura mais valorizada e incentivada. Tenho muito orgulho de ser Guarani”, reforçou o cacique Elpídio. Atualmente, o Mato Grosso do Sul é o estado que concentra a maior quantidade de índios Guarani no Brasil. São cerca de 45 mil, dos 65 mil existentes em todo o país.

O cacique Adolfo Veramirim, do litoral norte de São Paulo, salienta o fato de, pela primeira vez, a comunidade indígena Guarani estar reunida. “Será um encontro importante para discutir as políticas na América do Sul. As assembléias vão produzir debates com cada aldeia trazendo suas propostas. Teremos uma visão mais ampla voltada para o povo Guarani”, comemora.

Os debates acontecerão na tarde desta quarta-feira e durante todo o período da quinta (4). No último dia, os índios Guarani vão apresentar as considerações finais, e as deliberações tomadas, às autoridades presentes. Já estão confirmadas as presenças dos ministros da Cultura do Brasil, Juca Ferreira, e do Paraguai, Ticio Escobar.

A realização do Encontro dos Povos Guarani da América do Sul tem a parceria da Itaipu Binacional, da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), das prefeituras de Diamante D’Oeste e de Foz do Iguaçu, das Secretarias de Educação e de Cultura do Paraná, da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). O Instituto Empreender é o responsável pela produção executiva do evento. Além delas, o projeto tem o apoio do Mercosul Cultural.

(Comunicação/SID)

Fotos de Publius Vergilius


Ministro da Cultura do Paraguai fala sobre Encontro Guarani

El Encuentro de los Pueblos Guaraní de América del Sur, llamado Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa, título que libremente podría ser traducido como Gran reunión sobre nuestra clara manera de ser: el asiento de la tierra, marca un punto de inflexión en la experiencia de encuentros de los pueblos guaraní entre sí y entre ellos y la sociedad nacional y los Estados.

Los guaraní resisten el asedio colonial y neocolonial preservando con celo su teko añete, su verdadera manera de ser, creer y crear. Pero esta fidelidad a la historia y a la memoria propias no significa un enclaustramiento. A lo largo de 500 años los guaraní han aprendido a convivir con las sociedades nacionales de los que posteriormente constituirían los países de la región (Argentina, Brasil, Bolivia y Paraguay), buscando el equilibrio entre sus valores culturales y las necesidades de readaptación a una historia en gran parte impuesta y en gran parte asumida. Esta convivencia supuso complicados procesos de transculturación y aculturación, negociación, reacomodo y cambio. Las luchas por la autogestión política, la subsistencia económica digna y el dominio de la tierra propia, formaron parte de uma agenda conflictiva que, aun hoy, sigue abierta a diálogos y confrontaciones que no excluyen los litigios.

Este encuentro histórico conserva tanto los momentos de reflexión y vuelta de los pueblos guaraní sobre sí mismos, como la apertura hacia un diálogo con las autoridades y una comunicación orientada a repensar políticas públicas en el ámbito de los asuntos indígenas. Para los Estados nacionales involucrados en este proyecto, tal desafío significa, por una parte, la posibilidad de considerar sus propios territorios, unidos por vínculos que los anteceden. Y, por otra, la de recibir pistas fundamentales referidas a la democratización cultural, la constitución de una esfera pública equitativa y diversa; el desarrollo de programas participativos, realizados en común entre las instituciones oficiales y las poblaciones más vulnerables y, por encima de todo, el respeto de la diferencia cultural, derecho humano fundamental que rige los valores éticos y políticos compartidos por la región.

Los guaraní tienen una larga tradición en el manejo de lo particular y lo universal. Su gran pueblo -orientado al teko porä, el bien-estar; el equilibrio comunitario, personal y ambiental- sabe regular las relaciones entre las pequeñas unidades comunales y la vocación de integrar un gran pueblo común, cuyo lenguaje compartido les permite renovar continuamente el sentido: la búsqueda del Yvy marane’ÿ constituye metáfora de la tierra prometida (de la búsqueda del sentido), pero también, conciencia de que este ideal debe partir del arraigo más concreto: la tierra como asiento del medioambiente y condición de calidad de vida, custodiada con celo. Esta doble reserva, la del sentido (la cultura) y la del hábitat, debe ser cautelada por los Estados como garantía de la continuidad no sólo de nuestros antepasados, sino del teko porä de quienes habrán de sucedernos.

Ticio Escobar

Ministro de la Secretaría Nacional de Cultura, Paraguay.


Ministro da Cultura do Paraguai fala sobre Encontro Guarani – Versão em Português

O Encontro dos Povos Guarani da América do Sul, em guarani Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa, título que pode ser traduzido de forma livre como Grande Reunião sobre nossa clara maneira de ser: a base da terra, é um marco histórico na experiência de encontros entre os povos Guarani, entre esses Povos, as populações não-indígenas e  os Países.

Os Guarani resistem ao assédio colonial e neocolonial, preservando com zelo o seu teko añete, sua verdadeira maneira de ser, crer e criar. Mas, esta fidelidade à sua história e memória não significa um isolamento. Ao longo desses 500 anos, os Guarani aprenderam a conviver com as sociedades nacionais dos que posteriormente constituiriam os países da região (Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia), buscando o equilíbrio entre seus valores culturais e as necessidades de readaptação a uma história em grande parte imposta e em grande parte adquirida. Essa convivência passou por complicados processos de transculturação e aculturação, negociação, readaptação e mudança. As lutas pela autogestão política, a subsistência econômica digna e o domínio da própria terra integraram uma agenda conflituosa que, ainda hoje, continua aberta a diálogos e confrontos que não excluem os litígios.

Este Encontro histórico conserva tanto os momentos de reflexão e retorno dos povos Guarani sobre si mesmos, quanto a abertura para um diálogo com as autoridades e uma comunicação orientada para repensar políticas públicas no âmbito da temática indígena. Para os Estados nacionais envolvidos neste projeto, tal desafio significa, por um lado, a possibilidade de considerar seus próprios territórios unidos por vínculos que nos antecedem. E, por outro lado, a de receber pistas fundamentais referentes à democratização cultural, à institucionalização de uma esfera pública igualitária e diversa; ao desenvolvimento de programas participativos, realizados em comum entre as instituições oficiais e as populações mais vulneráveis e, acima de tudo, o respeito da diferença cultural, direito humano fundamental que rege os valores éticos e políticos compartilhados pela região.

Os Guarani têm uma longa tradição no manejo do particular e do universal. Seu grande povo – orientado pelo teko porã, o bem estar, o equilíbrio comunitário, pessoal e ambiental – sabe regular as relações entre as pequenas unidades familiares e a vocação de integrar um grande e único povo, cuja linguagem compartilhada lhes permite renovar continuamente o sentido: a busca do YvY marane’y constitui metáfora da terra prometida (da busca do sentido), mas também, consciência de que este ideal deve partir das raízes mais fortes: a terra como sede do meio ambiente e condição de qualidade de vida, guardada com zelo. Essa dupla reserva, a do sentido (a cultura) e a do habitat, deve ser custodiada pelos Estados como garantia da continuidade não só dos nossos antepassados, mas do teko porä das próximas gerações.

Ticio Escobar

Ministro da Secretaría Nacional de Cultura do Paraguai.