Publicado em 25 de novembro de 2008
Obama e a tecnologia
O uso da Internet na campanha de Barack Obama vem sendo considerado como um dos fatores que muito contribuíram para a sua vitória eleitoral. Obama é tido como o primeiro presidente “alfabetizado” em tecnologias de informação e comunicações (TIC). Da divulgação de propostas à captação de recursos, a Internet assumiu, na campanha democrata, importância central como instrumento político. À diferença dos demais candidatos, desde a época das primárias do partido, a campanha de Obama apostou nos recursos da Internet de segunda geração (Web 2.0). Foi além da mera publicação estática de informações ou envio de propaganda eleitoral via correio eletrônico, tendo obtido amplo sucesso em usar a rede para criar via participativa de interação com o eleitor, por meio de redes sociais, comunidades virtuais, “blogs”, listas de discussão e compartilhamento de diversos tipos de mídia, entre outros. Analistas políticos observam que a inteligência no uso dos recursos telemáticos demonstrada na sua campanha é comparável à habilidade de Roosevelt com a radiodifusão, nos anos 30, e de Kennedy com a televisão, nos anos 60.
Essa constatação eleva a expectativa quanto ao emprego das TIC também na Administração Federal, a partir da posse do novo presidente, em janeiro próximo. Primeira medida da equipe de transição foi criar o site “change.gov“, no qual são reunidas informações sobre a equipe de transição, notícias do presidente eleito, vídeos e fotos de cada aparição pública de Obama, além de chamadas para mobilização popular em torno das propostas de governo e eventos participativos. Uma das promessas de campanha é a criação do cargo de “Chief Technology Officer”, ligado à Casa Branca, cuja missão seria coordenar a infra-estrutura federal na área de TIC. Especula-se que o ocupante do cargo terá mandato político ampliado, para assegurar que o fator tecnológico esteja devidamente contemplado nas propostas de legislação e iniciativas de governo, em vasta gama de assuntos, tais como mudança do clima, política energética e saúde (área na qual há o compromisso de campanha de investir 10 bilhões de dólares por ano na modernização dos sistemas de informação e bancos de dados).
Na pauta tecnológica, deverá ser evidenciado o apoio de Obama à “neutralidade da rede”, ou o requisito para que companhias fornecedoras de serviços de banda larga não discriminem os dados que trafegam por suas redes com base no conteúdo ou na origem. Tal posição enfrenta a resistência das grandes empresas da área de telecomunicações, que demandam o direito de cobrar seletivamente pelo tráfego, como fonte para manter os investimentos na infra-estrutura de redes. Também deverá ser ampliado o apoio governamental à formação nas áreas de ciências, engenharias e matemáticas, com vistas a melhorar a qualidade da força de trabalho norte-americana em tecnologia e inovação. Um provável contencioso nesse particular refere-se à demanda de companhias de alto conteúdo tecnológico pela flexibilização da política de concessão de vistos para a atração de talentos estrangeiros.
Como afirmou recentemente o ex-vice-presidente Al Gore, em conferência sobre a “Web 2.0″ em São Francisco (CA), a Internet aproximou os indivíduos do poder, ao dar-lhes acesso ao conhecimento e permitir-lhes efetiva participação nas decisões políticas nacionais. Entre muitos fatos inéditos da eleição de Obama, vale notar que ele será o primeiro presidente dos Estados Unidos que usa “blackberry” (teria dito, porém, que deixará de usar no exercício do mandato, por questões de segurança). Assim como Kennedy introduziu a televisão na agenda política, é provável que Obama seja visto como o primeiro presidente “em rede” da história.
everton em IGF - Hiderabad, neutralidade da rede, tecnologia