Workshop: A convergência digital além da tecnologia

Falando de benefícios sócio-econômicos, oportunidades para micro & pequenas empresas (SMEs) e políticas públicas

Painel muito bem conduzido por Herbert Heitmenn, que é o chairman da Comissão da International Chamber of Commerce – ICC em E-Business, e Chefe Global de Comunicação da SAP. Foi estruturado como perguntas que eram feitas aos participantes, que demonstraram muito conhecimento e perspectivas diversas e interessantes sobre o tema.

Representando uma visão mais pública da questão esteve presente Mr. Jyrki Kasvi, membro do parlamento finlandês e vice-presidente da comissão para o futuro. O indiano N. Sivasamban da Tata Consultancy Services, apresentou uma posição mais clássica pró-mercado, e a ótima Diretora de Desenvolvimento Estratégico da LIRNEAsia (think tank regional de políticas para TICs), Helani Galpaya do Sri Lanka, demonstrou novas e interessantes perspectivas com base em sua experiência na expansão da infraestrutura de acesso à internet e celulares no sul da Ásia. O representante da comissão européia, o inglês Malcolm Harbour, não compareceu em função dos recentes atentados terroristas em Mumbai.

O tema da convergência digital, visto como a tendência à interoperabilidade transparente para os usuários independente de equipamentos (devices), tecnologias (mobile, Internet, TV, etc.) ou localização, foi o eixo condutor do debate. A interação dos panelistas nas repostas às provocações do moderador e às participações da audiência presente, todas de alto nível, formaram um cenário interessante onde o papel dos telecentros, ou ‘Internet cafes’, como geradores de oportunidades econômicas foi o principal destaque.

Houve relativo consenso entre os panelistas no sentido de que as iniciativasgovernamentais de implementação de telecentros ou telequiosques não têm demonstrado boas soluções de sustentabilidade. Mas a unanimidade foi clara na caracterização destes espaços públicos de acesso à Internet como principais promotores da convergência digital, além de nicho de mercado fértil para micro e pequenos empreendedores (SMEs) interessados na economia do digital.

Neste aspecto houve debate interessante sobre o valor da abertura (openness) como orientação básica de políticas públicas a serem desenvolvidas para o setor. ‘Openness’ é um dos principais motores da Internet e de todo o processo de convergência digital — não à toa figura entre os 4 principais temas do IGF desde sua primeira edição em Atenas. Entretanto, a representante do Sri Lanka, Helani Galpaya, foi contestada por Morgan Reed, da APC (EUA), quando afirmou a relação direta entre abertura e inovação no deselvolvimento de iniciativas de SMEs para o acesso público à Internet.

Foi oportunidade para um aprofundamento maior do tema, e para destacar a importância de se estar aberto a soluções inovadoras em todas as dimensões que envolvem este novo setor da economia: o digital. O universo de pessoas interessadas no ramo é primordialmente jovem, bem educado e em condição de refletir sobre novos contexos de forma criativa.

Helani destacou também a importância da popularização das ferramentas para geração de conteúdo digital, e da necessidade de novos arranjos entre os novos criadores, provedores de conteúdo e operadoras de acesso (Internet e celulares). Disse estar observando de perto inúmeros diferentes modelos divisão de lucros em operação no contexto da convergência digital nos países do sul da Ásia, e mencionou a acentuada dinâmica dos locais onde SMEs encontram ambiente favorável à emergência de modelos de negócios inovadores na conquistar novos públicos para o digital.

O representante do parlamento Finlandês, Jyrki Kasvi, mencionou o fracasso da bem intencionada política de e-gov do governo de seu país, que lançou um sofisticado serviço de informações agronômicas para os fazendeiros locais. O caso é que estes não têm o costume de realizar nem mesmo o acesso básico à rede, menos ainda apresentam a habilidade necessária para operar interfaces sofisticadas. Mr. Kasvi falou também da estratégia aparentemente democratica, mas equivocada do governo finlandês em apressar a migração dos serviços de governo para os celulares, o que resultou em interfaces pouco amigáveis que afastaram os usuários.

O parlamentar finlandês entretanto fez questão de afirmar a importância do papel do governo em defender a abertura (openness) no ambiente da convergência digital, com o objetivo de promover o surgimento de modelos de negócio inovadores para micro e pequenas empresas. Citou o caso de abuso no uso de DRM na loja virtual do iTunes para a venda de conteúdo digital, afirmando que, nestes casos, governos têm atuado de acordo com os interesses das grandes empresas de conteúdo. E resumiu dizendo que as leis de propriedade intelectual podem ser utilizadas para facilitar o acesso, mas que a sua má utilização tem muitas vezes contrangido o processo de convergência.

Na perspectiva da especialista em implementação de TICs da LIRNEasia, governos tem papel central na formulação de regulações que barateiem a banda larga, e possam promover a implementação de pontos de troca de dados aumentando assim a eficiência da rede no país. Estando na Índia, teve que sublinhar a importância de se criar padrões de interoperabilidade multi-língue, e listou programas específicos de financiamento, especialmente para pequenos produtores de conteúdo, e fomento aos ambientes de desenvolvimento em plataformas abertas, citando como exemplo o sistema operacional para celulares Android, da Google.

Ao final, a manifestação da platéia local (indianos) se referia aos possíveis aspectos negativos que a Internet poderia trazer para as comunidades tradicionais. Os panelistas foram rápidos em alertar quanto a restrições ao acesso à Internet com base em julgamentos de valor. O acesso não é obrigatório, mas deve estar disponível para quem desejar.

O debate me acrescentou bastante no tema. Vale mencionar o momento final em que o finlandês perguntou quantos jovens haviam a platéia, e questionou o fato de o IGF, um evento que pretente debater a governança da Internet, ser realizado sem a presença dos verdadeiros experts no assunto.

Veja também:

José Murilo em IGF - Hiderabad, políticas públicas


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