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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Professor da Unicamp defende Fundo Pró-Leitura

IN CORREIO POPULAR, Campinas - 25/09/2009

IN CORREIO POPULAR, Campinas - 25/09/2009

Ezequiel Theodoro da Silva

Faculdade de Educação – Unicamp

Despojando-me de quaisquer ideologias político-partidárias e expressando aqui tão unicamente as minhas visões de um professor que sempre lutou pela democratização da leitura no Brasil, não posso deixar de entrar no debate em torno da criação do Fundo Setorial Pró-Leitura. E lendo a paisagem atual da leitura nas diferentes regiões brasileiras, sinto-me na obrigação de me posicionar favoravelmente à consolidação e funcionamento, o mais rápido possível, desse Fundo.

Num flashback de natureza histórica, vejo que a circulação da escrita no Brasil, desde o Período Colonial, sempre foi realizada aos trancos e barrancos, sempre foi levada ao sabor dos acasos, seja porque a tesoura da censura serviu para impedir o conhecimento das idéias contra as injustiças sociais, seja porque as conquistas na esfera da produção de materiais escritos (livros, jornais, revistas, etc.) nunca foram acompanhadas de políticas consequentes de leitura. Daí o domínio e o manejo da escrita ter permanecido, ao longo da história brasileira, como um privilégio de classe e não como um direito de cidadania.

Desde o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova nos idos de 1932, desde as contundentes reflexões de Lourenço Filho sobre a necessidade de bibliotecas para promover as práticas de leitura dentro e fora dos ambientes escolares, reitera-se a íntima relação entre leitura e desenvolvimento e, ao mesmo tempo, lamenta-se o esquecimento dos governos no que diz respeito à implantação de um serviço decente, contínuo, permanente, bem mantido e abastecido de organismos para promover o acesso democrático aos bens culturais do mundo da escrita.

É oportuno lembrar aqui que estamos vivendo o Terceiro Milênio, ano de 2009, aldeia global, com a escrita virtual da Internet abrindo perspectivas inéditas para a melhoria da comunicação humana e fazendo explodir informações por todos os lados, por todos os poros. Porém, no Brasil, o panorama da leitura – do acesso, manejo e fruição da escrita – é drástico, vergonhoso. A dívida dos governos para com a formação de leitores habituais e maduros é imensa, bastando analisar com o devido carinho os resultados das duas últimas pesquisas nacionais “Retratos da Leitura no Brasil” (2001 e 2008, Instituto Pró-Livro) e/ou comparar esses resultados com aqueles países onde as práticas de leitura foram devidamente enraizadas ao longo da sua evolução histórica.

Sempre afirmei que o ato de ler é um ato perigoso ao poder e àqueles que gozam das benesses do poder. Isto porque a leitura serve, antes de tudo, para o desvelamento das contradições sociais e para qualificar, adensar as decisões e ações dos indivíduos. Nestes termos, deixar a leitura como está, reproduzir as suas misérias, dificultar o funcionamento de programas de transformação, discursar para nada mudar ou então fingir mudar para deixar exatamente como está, arbitrar contra a instalação de um Fundo para alavancar projetos de mudança, etc. são movimentos para escantear a possibilidade de assentar neste país, definitivamente, a leitura enquanto um direito de cidadania.

Caio Graco Prado, editor com quem muitas vezes conversei a respeito dos problemas culturais brasileiros e com quem compartilhava muitas utopias, percebia muito bem que sem leitores os livros não mudam o mundo, mas que os livros, por sua vez, mudam as pessoas. Em outras palavras, que livros sem leitores são nada mais que papeis pintados com tinta. O Brasil até tem uma política do livro, mas uma política de leitura somente agora começa a se corporificar através de diferentes iniciativas do atual Governo (PNLL, Programa Mais Cultura do MINC, etc.); nestes termos, o FUNDO SETORIAL PRÓ-LEITURA pode, ao lado de outras ações também necessárias, tirar a leitura (prática sem a qual o livro não existe) do fundo do poço em que foi historicamente colocada e, o mais importante, ser uma ponte entre um governo e o seu próximo, permitindo a continuidade dos programas em favor de mudanças reais na área da leitura e evitando que  burocratas iluminados, serviçais das elites ou do poder econômico, reinventem a roda para manter a cultura escrita na sua eterna jornada sempre a pé ou de marcha ré!


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