O sertão cultural da Paraíba
Revista Economia da Cultura – Sefic – Edição #1 – novembro.2009
Onde existe gente, existe cultura. O que precisamos é oferecer condições similares a todos. Somente assim viabilizaremos o afloramento e a percepção das manifestações latentes em todas as populações, em suas dimensões material e espiritual.
Nossa Constituição Cidadã, de 1988, em seu artigo 215, imputa ao Estado a responsabilidade de garantir a todos o exercício do fazer cultural e o acesso às fontes da cultura brasileira.
Precisamos, então, assegurar esse direito constitucional a todos os brasileiros, principalmente porque vivemos em um país continental, que sofre com as perversidades provocadas pela nefasta globalização e pelos regimes neoliberais da moda.
Não acredito em milagres. É imprescindível mudar a forma centralizada de oferecer as oportunidades de formação, produção, fruição e circulação dos bens culturais. De outro modo, estaremos deformando a cultura de uma maneira irreparável, conseqüentemente, deixando de ser nós mesmos para assumirmos identidades imitadas e pasteurizadas dos outros.
Uma oportunidade singular está sendo vivida, atualmente, na cidade de Sousa, município do Alto Sertão Paraibano, oeste daquele Estado nordestino, uma área inóspita do Brasil, com índices de exclusão social abaixo da média do Nordeste, onde habitam 65.000 habitantes.
Lá foi instalado, pelo Banco do Nordeste, um equipamento cultural similar a qualquer outro presente nas grandes cidades brasileiras. Desde junho de 2007, os cidadãos sousenses passaram a viver a possibilidade de participar ativamente da vida cultural brasileira.
Essa experiência não foi imposta por organismo chapa branca, como esperava a imprensa paraibana, quando declarou em suas primeiras matérias sobre o assunto que “o centro cultural do BNB não veio para ser um elefante branco”.
O equipamento não foi entregue à comunidade já com as metas prontas e recheadas de teorias acadêmicas ilustradas com belos gráficos, nem o plano de trabalho foi definido entre quatro paredes por tecnocratas iluminados da capital.
A sociedade local, cerca de 200 mil pessoas moradoras do município de Sousa e de outras 32 cidades que compõem o cinturão do sertão nordestino, foi chamada para desenhar as ações que seriam desenvolvidas no equipamento. A população atendeu ao chamado e o resultado foi óbvio e imediato: a apropriação do equipamento pelas pessoas comuns.
No primeiro ano de funcionamento, foi registrada uma presença média de mais de 750 visitantes/dia. Hoje, essa média já atinge 1.200 pessoas/dia.
Teatro cheio, para assistir a shows e peças, grande procura pelos livros de literatura da biblioteca, grupos reunindo-se para participar de cursos de formação artística, as exposições e instalações de artes visuais contemporâneas sendo intensamente visitadas pelos grupos das escolas da região, exibição de curtas-metragens brasileiros nos calçadões da cidade. Nas ações de inclusão digital, jovens, adultos e idosos acessando os terminais de Internet e participando dos treinamentos básicos de computação. Enfim, uma demanda surgida já quase no limite da capacidade máxima do equipamento, atendida com cerca de 70% pelos atores culturais locais.
Ainda não foi medido qual o impacto que essa ação, realizada de forma planejada e integrada com a comunidade, está provocando no processo de desenvolvimento do Alto Sertão Paraibano e no crescimento da auto-estima das populações locais. Uma pesquisa está em andamento para avaliação dos resultados. É perceptível, porém, pelo comportamento da imprensa de João Pessoa, que as ações daquele pedaço de interior quase esquecido estão pautando, com muita freqüência, os cadernos culturais dos jornais da capital.
É o município de Sousa entrando nos roteiros culturais dos circuitos nacionais da arte brasileira, quebrando os paradigmas do consumo cultural das classes mais pobres e abandonando o status de ser apenas um alfinete no imenso mapa da cultura do Brasil.
Henilton Menezes
Gerente de Cultura – BNB
henilton@bnb.gov.br
Data: 24 de novembro de 2009
Categorias: Notícias
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