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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O estado em cena

O Povo – CE, artigo de Humberto Cunha, 09/08/2009

Para o advogado e professor Humberto Cunha, o Vale Cultura se une às outras tentativas do estado de democratizar o acesso à cultura. E, como as tentativas anteriores, precisa ser aperfeiçoada

Uma preocupação sempre presente nas reflexões sobre políticas de cultura é a de saber qual o papel do Estado neste setor. A questão, como colocada, remete a uma comparação com um espetáculo cênico, em que a realidade seria uma peça, e o Estado um ator, tanto que teria papel. Mas qual? Persistindo na comparação, a resposta deve ser obtida após uma referência – mínima que seja – à complexidade que uma peça pode ter.

Tomando-se como exemplo a obra de Shakespeare, é costumeiro encontrar a afirmação de que sua criação mais simples é Macbeth, por ser peça de trama única, consistente na inescrupulosa conquista e manutenção do poder pelo personagem-título. Por outro lado, O Rei Lear é comumente considerada a tragédia mais complexa do dramaturgo inglês, em virtude de, além da urdidura principal – que conduz ao desamparo e à loucura do velho monarca -, várias outras tramas secundárias se desenvolvem e, somente aos poucos, mostram-se mutuamente conectadas.

Os biógrafos de Shakespeare revelam que o dramaturgo aprimorava os textos, simples ou complexos, após cada ensaio e apresentação; ele também atuava, mas nunca na condição de ator principal; em média, num mesmo espetáculo, encarnava seis personagens, ou seja, desempenhava meia dúzia de papeis, além dos encargos fora de cena, que podem ser imaginados e dimensionados por seu apelido de Johannes fac totum (João-faz-tudo) ou, como aqui diríamos, pau-para-toda-obra.

É nítido que o aprofundamento da metáfora ora desenvolvida leva a que se investigue se, para o campo das políticas culturais, existe uma trama previamente escrita e se nela estão definidos personagens e distribuídos papéis.

O ponto de partida de toda e qualquer política pública em um Estado Democrático de Direito, como se propõe a ser o Brasil, é o disposto em sua Constituição que, neste sentindo, seria o roteiro básico da encenação, suscetível de ganhar, conforme a direção a que se submeta, maior ou menor eficiência, abertura ou clausura para improvisos e inovações.

Uma tentativa de desvelar o roteiro que a Constituição brasileira traça para a cultura, poderia induzir à seguinte descrição sumária: É livre a expressão da atividade cultural, pelos indivíduos, por grupos e coletividades específicas, bem como por toda a sociedade. Para que o exercício desta liberdade seja real e não apenas retórico, se necessário, o Estado, por todas as suas pessoas (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) e muitos de seus agentes (administradores, legisladores, julgadores e fiscalizadores) adotará as medidas necessárias para garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais, instituindo proteções, apoios, garantias e fomentos.

A Constituição nem sempre determina a forma como deve ser obtida a materialização dos deveres públicos atinentes aos direitos culturais. Prevê, para muitos casos, a possibilidade da criação de leis e atos administrativos que, compatíveis com a realidade, as possibilidades do Poder Público e as demandas sociais, possam torná-los efetivos. Significa, em se tratando de prestações de serviços ou a entrega de bens culturais, que adota a disciplina programática, ou seja, admite a variação na forma de atuação do Estado, na implementação de um novo programa político, legitimamente aceito pela sociedade.

Neste sentido se justifica, por exemplo, que a determinação constitucional no sentido de que “a lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais”, possa ser disciplinada, em dado momento, por meio de incentivos fiscais; vindo estes a se mostrarem insuficientes ou inadequados, podem ser complementados ou substituídos pelos sistemas de editais, pela implementação do direito à redução de ingressos, para estudantes e/ou pelo Vale Cultura,. Por seus turnos, as novas providências, ao evidenciarem fragilidades – como a de não propiciar a universalização dos benefícios, vez que direcionadas a segmentos específicos -, reclamarão reforço e novas providências.

Nessa concepção programática, portanto, mudanças são admissíveis, desde que não impliquem em redução ou interrupção do exercício de direitos culturais.

Mas além do fornecimento de bens e serviços, para assegurar a liberdade criativa e de expressão, bem como para propiciar estímulos positivos às manifestações culturais que convergem para a elevação da dignidade humana, qual Shakespeare em suas atividades teatrais, ao Estado brasileiro, na complexa trama das políticas culturais (muito mais evocadoras d’O Rei Lear que de Macbeth), são reservados muitos papeis, os quais podem ser aprimorados a cada ensaio, melhor, a cada experimento.

Nesta seara da cultura, o Poder Público só não pode ser um Johannes fac totum, porque nela o protagonismo é constitucionalmente reservado à sociedade.

HUMBERTO CUNHA é professor do Curso de Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor), vice-presidente da Comissão de Cultura da OAB-CE e advogado da União.


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RSS dos comentários TrackBack 5 comentários

Eneas dos Reis Coelho Neto

em 4 de outubro de 2009

Que fique bem claro a necessidade de Educadores bem remunerados, e atentos ao processo.
Tudo na vida se transforma, a CULTURA nacional começa a se reconstruir apartir desse diálogo.
Como Frejat diz em sua música : intimidade entre estranhos, o conhecimento nacional se faz através de boas ações rumo ao desenvolvimento sustentável.
As transformações da cultura nacional, começam a ter uma maior influência em outras áreas como a politíca nacional.

Marta Valéria

em 6 de setembro de 2009

SENHOR, SER EDUCADOR, NÃO É FALAR SOBRE Shakespeare, É SOBRETUDO, FALAR DA REALIDADE PRESENTE, FALAR SOBRE A VIDA PRESENTE.. POR FAVOR, LEIA O TEXTO DE TATIANA DOS REIS SILVEIRA….Ser educador hoje é viver intensamente o seu tempo; conviver é ter consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores, assim como não se pode pensar num futuro sem poetas e filósofos. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas cidadãs.

Diante dos falsos pregadores da palavra, os educadores são os verdadeiros, “amantes da sabedoria”; os filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber, porque constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam juntos um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para todos. Para Gadotti (2000), os educadores são imprescindíveis, sendo eles os verdadeiros construtores do processo de ensino-aprendizagem.

A aprendizagem é um processo que ocorre ao longo da vida, são momentos muitas vezes, de conflitos e divergências. Na visão de Jacques Delores (1998), vive-se hoje o chamado mundo globalizado que necessita, cada vez mais, de competências e habilidades, agilidade e sensibilidade, pressupostos de caráter humano que solicitam novos valores e critérios compatíveis com as mudanças da sociedade atual.

O educador é o responsável por estimular o prazer de compreender, descobrir, construir o conhecimento, curiosidade, autonomia e atenção no aluno. É preciso ensinar a pensar; a pensar a realidade e não apenas o “já dito” o “já feito”, e só reproduzir o conhecimento.

Segundo Gadotti (2000), o conhecimento tem presença garantida em qualquer projeção que se faça no futuro, por isso, há o consenso de que o desenvolvimento de um país está condicionado à qualidade de sua educação.

A tarefa de educar, no entanto é delicada porque supõe, em princípio, amor, desprendimento, doçura, firmeza, paciência e decisão, além do domínio dos conteúdos e metodologias. Daí a necessidade da motivação, do encantamento; motivação que deve vir de dentro do próprio aluno, oportunizada pelos estímulos do professor.

Na visão de Freire (1996), o sentido de ensinar é fazer com que o ser humano veja novos padrões de vida, novas formas de perceber, ser, pensar e agir, e que vão auxiliar no uso do conhecimento, na resolução de problemas, construções de novos significados e pensamentos.

E para que o indivíduo tenha experiências intelectuais estimulantes e socialmente relevantes é preciso à mediação do professor com boa conduta e domínio dos conhecimentos que deve ensinar e dos meios para fazê-lo com eficácia. O educador deve saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção (FREIRE, 1996, p. 47).

Segundo Freire (1996), o educador deve ter liberdade e autoridade, e que a liberdade deve ser vivida em coerência com a autoridade na condução de suas aulas; não pode ser imparcial em suas atitudes, deve sempre mostrar o que pensa, apontando diferentes caminhos, evitando conclusões, para que o aluno procure o que acredita, com suas explicações, se responsabilizando pelas conseqüências e construindo assim sua autonomia.

Para Freire (1996), motivar e auto motivar-se, é de fundamental importância no processo de docência, é a busca não apenas do conhecimento teórico e prático através de capacitação e formação, mas da relação docente-discente, sendo esta peça fundamental para a formação e educação crítica dos cidadãos.

Eneas dos Reis

em 30 de agosto de 2009

O moça, vc não pode falar assim com um EDUCADOR!

Normando Peixoto

em 19 de agosto de 2009

Quando a cultural passa a ser questão objeto de reflexões políticas, sofrendo a intervenção do estado, já não se pode mais dizer que é cultura em seu sentido lato. Desde os primórdios da humanidade o homem é essencialmente “artifex”, criador, o fazedor.

Quando o homem descobriu o fogo, a roda e outros instrumentos que vieram facilitar sua vida, certamente ele demonstrou por si só, a capacidade melhorar os mecanismos de sobrevivência com o meio, o que veio a produzir um significativo melhora na sua condição de vida. A partir da descoberta do fogo o homem passou do trabalho estritamente manual para o trabalho artesanal. Dessa maneira o homem não mais se conteve em apenas esperar da natureza que ela lhe punha artefatos a sua disposição. Com a evolução da humanidade, saímos do trabalho artesanal e chegamos até o trabalho industrial.

Só se pode reconhecer a evolução humana através do exame detalhado de seus produtos culturais. Defronte a nós se estende um maravilhoso arsenal de produtos humanos e, somente pequena parte deles, recebeu as benesses estatais. Os costumes, a língua, ritos, religiões, a arte, sistemas políticos, surgimento das cidades, as estradas, etc., todos estes equipamentos surgiram devido à atuação do homem na sociedade. Para melhor exemplificar o que eu estou dizendo, basta se aprofundar em três grandes especialistas do estudo da cultura: Dawson, Kroeber, Nieburg.

Durante séculos a cultura não foi uma preocupação estatal. Apoiavam-se os artistas, os músicos, os trovadores, mas não havia interferência nenhuma na forma de criar dos mesmos. Com o decorrer do tempo, mudaram-se as formas de relacionamento mercantilistas, principalmente a partir da revolução industrial, quando tudo, até a cultura, passou a ser uma maneira uma maneira de dominação das elites, aumentando, cada vez mais, a participação estatal na cultura.

Questionar saber qual o papel do Estado, comparando-o a um espetáculo cênico, e atribuindo-lhe a função do Estado, como ator, já embute a idéia discriminação que os teóricos da cultura fazem dela. Apelar para a esdrúxula definição de ser o Estado apenas o ATOR, desqualifica a quem profere tal discurso, pois nos estudos de especialistas mais aprofundados, surge à idéia de que o Estado moderno faz o papel de DIRETOR, incentivando as produções culturais.

Tomando-se o mesmo exemplo Shakespeare chega-se a reflexão de que o Estado, tal como Shakespeare, serve apenas de capa aos atores da cultura. O Estado não é Ator, visto que os atores da cultura estão na sociedade e suas iniciativas culturais afloram da própria sociedade, não pertencem ao Estado, pertencem aos demais atores do mundo cultural.

Sabe-se hoje que Shakespeare não escreveu as obras que lhe são atribuídas, mas que serviu apenas de capa a Francis Bacon, Christopher Marlowe, Walter Raleigh, ou à Rainha Isabel I, ou até a própria mulher do poeta, Ana Hathaway, e outros. Criptógrafos decifraram códigos escondidos nos escritos de Shakespeare, que indicavam o verdadeiro autor. No fundo desta questão está a noção de que um homem de origem e instrução humildes não podia ser um gênio aquelas proporções. Estas teorias foram rebatidas de várias formas, mas o testemunho mais evidente contra elas é constituído pelas próprias peças – o estilo é o homem – código insofismável em que a vida e o trabalho se encontram.

Dessa maneira, o Vale cultura é uma das iniciativas mais louváveis, pois o Estado está dispoosto a cumprir seu papel, a cumprir o seu mister, que é o de fomentar as iniciativas culturais, deixando as escolhas e opções que a própria sociedade as faça.

Marta Valéria

em 12 de agosto de 2009

Prof. Humberto Cunha, o sr. é muito subjetivo, divagante, nebuloso e poético. Escreva mais tecnicamente. Tinha que ter Shekespeare nesse estória sua aí. Pelo amor de Deus, fessô!